sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Gouffre du Trou du Vent de las Goffias, França.

É uma gruta muito bonita e de acesso relativamente fácil, como as que existem na serra da Arrábida. Com cerca de 95m de profundidade tem uma das formações mais espectaculares que já vi em terras gaulesas: o Monumento. Trata-se de uma enorme estalagmite com cerca de 3m de raio por 15m de altura.

França e os franceses não se podem queixar da qualidade do seu património subterrâneo assim como dos seus exploradores e não é por acaso que eles marcam bem a diferença em relação aos seus colegas europeus.

Não digo isto por serem eles os pioneiros e percursores da espeleologia moderna, mas pelo admirável empenho de dar à espeleologia técnico/científica e seu merecido lugar de destaque.

Ao longo de mais de cem anos são deste país o maior número de nomes e de referências que contribuíram e contribuem, muitas vezes de forma anónima, para o conhecimento das ciências subterrâneas. Muitos tem hoje estatuto de lendas tal é o reconhecimento que os espeleólogos actuais lhes atribuem, outros, são-lhes dispensados tais reconhecimentos que são tidos quase como deuses.

Encontramos também aqui nesta recatada gruta, como em muitas outras desta região, uma sala com o nome de um deles “Martel” e, não foi que me parecesse mal, mas fiquei a pensar: - mas porquê sempre Martel… então e os outros?


quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Férias, pois então!

Madeira 2009

Depois de um ano pleno de intensidade subterrânea rumámos até terras madeirenses que não sendo propriamente virtuosas em grutas é, em paisagem de montanha, um dos melhores quadros nacionais. A sua floresta laurissilva classificada pela UNESCO em 1999 como património da humanidade, por aí se encontrar a maior e mais bem conservada mancha, veste-lhe bem a orografia.








Sente-se natureza na Madeira, as formações geológicas, as associações vegetais, a fauna presente e as marcas humanas de um passado muito pouco distante estão aqui ainda em quase perfeita simbiose.
Existem muitas maneiras de se abordar, pela primeira vez, a ilha na sua versão mais naturalista sem se ser propriamente um turista clássico, do caminhar por caminhar, do ir ali porque se foi ali. Quando chegamos só sabíamos que íamos ver a ilha (arquipélago), pois a informação que tínhamos colhido era um pouco escassa. Sabíamos de antemão que devíamos ir ali ou acolá porque amigos nos tinham sugerido, mas não há nada como improvisar no próprio dia!

Adquirimos um guia de veredas e levadas disponível nos centros turísticos, com base neste traçamos os nossos percursos por essas paisagens naturais deslumbrantes, medimos a hora de chegar fazendo estimativa aos quilómetros que vinham pela frente e, uma máquina fotográfica, uma câmara de vídeo, um par de botas, pernas e vontade fizeram o resto.


Madeira 1ª Parte.




Madeira 2ª Parte.

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

O Tempo do Risco

Carta Arqueologica de Sesimbra

O CEAE-LPN orgulha-se de ter participado activamente neste projecto, nomeadamente na identificação de sítios arqueológicos, tanto à superfície como em gruta: o conhecimento de campo e do meio subterrâneo da cadeia da Arrábida posto à disposição dos coordenadores do projecto liderado pelo Prof. Dr. Manuel Calado, resultou na identificação de 27 grutas com espólio arqueológico, onde se destacam a Gruta do Sono, Lapa do Jerónimo, Lapa dos Corvos, para além de artefactos inéditos como foi exemplo a célebre tábua árabe, descoberta já na fase final do projecto.

Foram dois anos que fizeram deste projecto um bom exemplo de parceria entre entidades e investigadores de áreas bem distintas, em que a espeleologia teve a oportunidade de trazer valor acrescentado. Um caso de sucesso.

A acção de campo de toda a equipa foi sendo registada em fotografia que se encontra agora exposta, em grande formato, na Avenida 25 de Abril em Sesimbra.
























FICHA TÉCNICA
Organização
Câmara Municipal de Sesimbra
Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa

Texto
Luís Jorge Gonçalves

Fotografia
Ricardo Soares

Design
Raquel Santana

Coordenação e edição
Gabinete de Informação
e Relações Públicas da CM Sesimbra

Apoio
CEAE/LPN

Impressão digital
Écranvia, Ld.a

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Gouffre Berger, França.


A Gouffre Berger é tida como o abismo mais bonito dos Alpes franceses. A sua entrada situa-se a 1460m de altitude, perto da povoação de Engins, na região de Vercors.

É uma daquelas grutas míticas que sempre tive vontade de conhecer e que sempre me mereceu um respeito um pouco tenebroso. Sempre ouvi contar histórias sobre ela, mortes que aconteceram devido ao aumento súbito da água, da imprevisibilidade do tempo à superfície e da sua temperatura que ronda os 3ºC.

Para mim foi provavelmente a gruta que me causou as sensações mais estranhas. Saber que estas coisas aconteceram, que vidas foram aí ceifadas em ambiente de autentico terror e passar pelos locais, ver as lápides improvisadas que os colegas deixaram, foi sem dúvida uma sensação que não esquecerei.

Mas também é verdade que se trata de uma caverna muito bela, é tida por muitos como os -1000m mais fáceis de se atingir e uma das mais clássicas cavernas mundiais; foi aqui que se alcançou pela primeira vez a profundidade de -1000m, um feito extraordinário já que na época (década de 50) os meios de exploração eram rudimentares comparados com os de hoje.

História da Exploração: http://latronche.free.fr/berger.html#histo

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Gruta de Loferer Schacht, Áustria.

Expedição 2009

Ao fim de quase onze anos de grutas, vivi a minha primeira experiência de Expedição espeleológica de carácter Internacional que visou a continuação da exploração da Gruta de Loferer Schacht, nos Alpes austríacos, iniciada por espeleólogos polacos há cerca de 30 anos atrás.

A 08 de Agosto iniciamos a nossa longa marcha de aproximação ao longo de um dia, desde a localidade de Loferer na base da montanha, até atingirmos o vale de Grossewehrgrube encaixado entre os montes Reifhorn a Norte e o Ochsenhorn a SW, a 2200m de altitude.

A equipa foi chegando aos grupos ao local estafada da subida e do peso que cada um carregava às costas; no fim, reunidas as três nacionalidades dos exploradores, alemães, checos e portugueses, foi montada a base de superfície que serviria de apoio ao longo dos seguintes seis dias.

No dia 09, logo às 9.30h, começaram os preparativos de logística para o ataque à gruta tal como a distribuição de objectivos. Houve 4 equipas, uma que ficaria à superfície e que estaria em comunicação com o grupo através de um sistema de mensagem “Cavelink”, e as outras três que iriam efectivar os objectivos dentro da gruta, referentes a topografia, desobstruções, exploração, novas equipagens, manutenção de cabos, recolha de dados de temperatura, humidade, velocidade do vento, inventário e recolha de imagem de vídeo.

Entramos pelas 16:00h em grupos separados onde nesse dia apenas se pretendeu alcançar os bivaques, designados de Terminal 1, Garten Für Die Harten e Waldstadion, a cerca de -430m, -570m e -530m.

A minha equipa depois de trocar uns cabos pelo imenso percurso descendente, pernoitou no 1º bivaque e no dia seguinte, pelas 11:00h, retomou a actividade. Esperava-nos uma grande sequência de poços com água que teríamos de evitar, mas mal tomámos a iniciativa de partir, um estrondoso roncar de águas foi aumentado de volume. Era a indicação que se tinha abatido uma tempestade à superfície e só eram necessários cinco minutos para que uma forte massa de água atingisse esta profundidade. Esperámos duas longas horas para senti-la a diminuir e só então, sempre alertas, conseguimos vencer a descida até ao 2º bivaque. Foram cumpridos todos os objectivos propostos e ainda descobertos novos espaços pela equipa do Pedro Pinto, Timóteo e Bernd. A equipa dos checos Petr e Zdenek também alcançou grande êxito ao descobrir um meandro e uma sala com mais de 200m de comprimento.

No dia 13, depois de dias em auto-suficiência, de muito frio nos pés e de cheirinhos entranhados nos corpos, a minha equipa deu inicio à subida. Um dia inteiro de enorme esforço para vencer uma interminável sequência de poços tecnicamente muito difíceis, até que finalmente se alcançou a luz do dia.


Topografia da Gruta Loferer Schacht.














Organização DAV Höhlengruppe, de Frankfurt am Main.

A Equipa de Bravos!


Alemanha;

Oliver Kube
Bernd Kahlert
Marvin Soldner
Robert Heinig

Portugal;

Pedro S. Pinto
Rui M. Francisco
Timóteo Mendes
Renato Serôdio

Republica Checa;

Petr Caslavsky
Zdenek Dvorak



Janela de momentos....

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Uma Descoberta Fantástica.

No seguimento da colaboração e apoio ao Projecto de investigação e valorização do património arqueológico de Sesimbra, que teve início em 2007, o CEAE-LPN, no decurso do levantamento topográfico de uma das 27 grutas identificadas com vestígios arqueológicos fez uma descoberta, no mínimo invulgar. No decorrer do levantamento topográfico de uma das grutas que existem na Serra da Azóia, ao recolher dados de uma zona muito estreita que normalmente não se passa, havia uma pequena fenda. Ao espreitar-se para o seu interior reparou-se numa silhueta que parecia não ser rocha e com a ponta dos dedos conseguiu-se alcança-la.

Lentamente se constatou que se tratava de uma tábua com caracteres árabes escritos dos dois lados e… não vale a pena relatar aqui o tamanho que foi a nossa alegria! Por enquanto apenas é possível relatar uma interessante agitação no seio da comunidade científica que se dedica ao estudo específico do al-andaluz, a notícia já corre mundo e já há interessados em tomar a investigação do singular achado. Existem paralelos, em particular no Museu de Beja, no entanto não é conhecida a sua exacta origem nem tradução. De momento apenas é possível partilhar que se trata de uma tábua inscrita nas duas faces com caracteres árabes arcaicos que, tendo em atenção o estilo caligráfico e algumas fórmulas religiosas decifráveis, pode ser enquadrada numa cronologia entre o séc. XI/XII da nossa Era.

terça-feira, 7 de Julho de 2009

Travessia Torca de Tonio – Cueva Cañuela, Espanha.

Partindo da Aldeia de Socueva, no dia 4 de Agosto de 2007, tomamos o mesmo trilho que leva a entrada da mítica Sima del Cueto, para o Macizo de Peña Lavalle, na zona de Arredondo, Cantábria. Saímos da referida Aldeia pelas 12:30h o que se revelou um autêntico martírio, pelo menos para mim. O desnível que tivemos que vencer foi de cerca de 500m para alcançar a entrada da Torca de Tonio a 705m de altitude. A encosta tinha uma inclinação média de 30%, com o sol a bater de chapa, sufocante, e sem uma única sombra para fazer baixar um pouco o calor corporal, pensei mesmo em abandonar a subida.

Chegamos à entrada da Torca de Tonio encaixada numa formidável dolina, a deslocação de ar daí proveniente era admirável.


Trata-se de uma travessia de dificuldade técnica média – alta em que se desceu uma sequência de cerca de 15 poços até se atingir a profundidade de -280m, alcançando-se assim a rede da Cueva Cañuela.

A chegada ao colector da rede Cañuela é facilmente identificada. Segundo os nossos colegas espanhóis, Pep Pujal e Pepe Roig, esta é marcada pela grande sala Olivier Guillaume, a 4ª maior de Espanha, que tem um desnível de mais de 100m!
A partir daí o percurso desenrolou-se por galerias bem grandes onde destaco a galeria de las Sierras, uma conduta de extraordinária beleza pelas suas enormes estalactites que se assemelham a serras, encantadora.

Saímos pela entrada da Cueva Cañuela, a -400m de profundidade, por volta das 20:45h. Não pude ficar indiferente ao aspecto do perfil da sua boca de entrada, é por si só um monumento geológico, encantador!
Saida da Cueva Cañuela.






Passos na História

Torca Tonio

Em 1986, M. António Peral, habitante de Socueva, mostra a entrada ao grupo de espeleólogos franceses do S. C. du CAF que a exploram até aos -228m.

No ano Seguinte as grupos S. C. Paris, G. S. BM e o S. C. du CAF, conseguem passar a diáclase estreita de -100m, por uma via paralela à já conhecida do ano anterior, e a 14 de Agosto, alcançam a sala Guillaume realizando assim a ligação com a Cañuela.

Cueva Cañuela

A Cueva Cañuela é uma cavidade conhecida desde sempre, mas a sua exploração sistemática só aconteceu, pelo Spèlèo-Club de Dijon, em 1959 (Cañón Oeste) e 1967.

A travessia converteu-se numa grande clássica com 2 km de percurso e cerca de 400m de desnível.

A equipa: Pedro Pinto, Joanaz de Melo, Rui Francisco, Pep Pujal, Marília Moura, Tiago Borralho e Pepe Roig.