segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Angola - Fauna Cavernícola


Identificação
Finalmente a identificação da "bicha angolana"
Um agradecimento especial ao meu grande colega RAUL PEDRO que durante dois dias, pesquisou e descobriu, o "mistério" que se cruzou connosco a 25m de profundidade, numa caverna de Angola.
Trata-se de uma COBRA DE CASA AFRICANA.

Olive House Snake - OLIVACEUS LAMPROPHIS

Descrição da cabeça:
Apresenta uma linha fina e não linear sobre o olho, prolongando-se até à parte posterior da cabeça.
Olho uniforme, verde azeitona e esbugalhado.
Cabeça escura, triangular com afilamento acentuado dos olhos para a focinho ( narinas).

Descrição do corpo:
Apresenta lista vertebral de cor ligeiramente mais escura , mais nítida do meio do corpo para a cauda.
Tom geral esverdeado, quase uniforme e escamas tipo gota de água também muito uniformes.
As escamas ventrais são claras.

Cauda:
Não é possível observar.

Classificação
Família Colubridae; Sub-família Boodontinae; Género Lamprophis; Espécie olivaceus.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Travessia Sima - Tibia Cueva Fresca



Em Maio de 2009 executamos a travessia da Sima Tibia – Cueva Fresca. Com um percurso principal de cerca de 3km e um denível de 410m, esta é a terceira maior travessia do Vale Asón.

PASSOS NA HISTÓRIA

1964

Claude Mugnier localiza a gruta e faz a primeira inspecção.

Pouco tempo depois, o S. C. Dijon explora a rede dos Zarpazos e as galerias da Bici até alcançar o Bloque 64.

1965

O S. C. Dijon descobre a 5ª Avenida e a enorme sala Rebelais e avança pelo Cañón Rojo até ao Derrumbe 65.

Explorando outras redes laterais, descobrem o acesso às redes inferiores.

1966

Em colaboração com o S. E. S. Sautuola (Santander), o S. C. Dijon explora em Abril o meandro Federico e no verão o Cañón Rojo até ao final, o Cañón Norte, o Meandro Borracho, a galeria do Pozo Eolo, etc.

1967

Os trabalhos de topografia avançam; são topografados mais de 9250m.

1968

Ao se alcançar a Cañón Norte, são conhecidos 11500m de rede.

1970

São explorados o Rio 70 e o Torrente Suspendido.

De 1976 a 1988

São realizadas várias campanhas de topografia e exploração.

1989

Os espeleólogos do C. A. F. descobrem a Torca Tibia em Março e em 4 raids alcançam a profundidade de -150m.

Em Maio chegam ao fundo da rede Tibia, a -490m.

Em Julho, o mesmo grupo organiza um bivaque e escala uma chaminé que dá para uma galeria, que por sua vez dá acesso a um poço de 29m; descem-no e conseguem ligar as duas redes.

1990

Em Maio, o S. C. Paris realiza pela primeira vez a travessia de 410m de desnível e 3200m de desenvolvimento.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Fendas da Humpata, Angola

Depois de explorarmos cerca de 1km de rede, parecia que tínhamos esgotado as possibilidades de encontrar a continuação. Num canto, enquanto se procedia ao levantamento topográfico, reparamos numa pequena estreiteza sob os nossos pés. Averiguamos e parecia continuar.

Um pequeno túnel bastante sinuoso parecia querer desafiar a malta. Enfrentamo-lo, mas com grande cautela. Era muito longo, estreito e sinuoso e, se não conseguíssemos dar a volta ao corpo no fim, podia ser muito complicado voltar a sair dali.

Mas compensou, no fim do túnel e apenas com uns arranhões nas costas, conseguimos dar a volta ao corpo e detectar a continuação da rede. Estava apenas ligeiramente obstruída por areia, perfeitamente transponível depois de uma desobstrução.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

História de Pedras

Pessoas instruídas há muitas; pessoas instruídas e inteligentes, menos; muito menos ainda, pessoas que, além da instrução e da inteligência, têm faro!

Tenho uma grande admiração e respeito por essas pessoas pois são raríssimas.

Honro-me de conhecer algumas e vejo-me obrigado, em favor da precisão desta história, a nomear uma. Trata-se do professor Félix Trombe, montanhista e espeleólogo experimentado, sempre cheio de ideias geniais. Era quase inevitável que ele estivesse na base de uma descoberta que vos passo a contar e de que participei.

Há uns anos atrás, Félix Trombe, sempre ávido de pesquisa e amante do mundo subterrâneo, embrenhou-se na gruta de Rieusec. Aquela gruta, situada no maciço de Paloumére, na vertente de Henne-Morte, há muito que o atraía. Apesar de imensa, Trombe conhecia-a até aos mais pequenos recantos.

Logo à primeira vista avaliara o interesse daquela gruta que, aos seus olhos, não era como as outras.

Ele mesmo escolheu e extraiu, de entre várias toneladas de pedras, aquelas que lhe pareceram diferentes de todas as outras. Muitos outros espeleólogos e investigadores visitaram aqueles lugares sem que nada tivessem notado de particular.

Trombe, ao regressar a Paris, confiou uma amostra dos calhaus a um químico a fim de saber de que se tratava. O calhau que não foi utilizado nas análises foi-lhe devolvido com um relato sumário. A pedra não tinha qualquer interesse, tratava-se de calcite vulgar, idêntico ao que se encontra em todas as grutas.

Mais admirado que decepcionado, o professor guardou o calhau outra vez, não se decidindo a separar-se dele. Meteu-o no fundo de uma gaveta, convencido de que um dia qualquer coisa se haveria de revelar.

Passou o tempo. Cada um de nós sente, de vez em quando, a necessidade de arrumar as gavetas. Foi assim que Trombe redescobriu o seu querido calhau, amostra mineral.

Entregou-o ao seu assistente, pedindo-lhe para examinar a pedra quando tivesse tempo.

Fez-se o exame. Como Trombe previra, a pedra tinha enorme interesse científico.

Conforme o garantiam as análises feitas no laboratório de terras raras de Bellevue, jamais se vira calhau igual. Continha uma multidão de produtos interessantes e tinha, ademais, a particularidade de apresentar um espectro exactamente igual ao das pedras trazidas da lua.

Estranha coincidência: como é que sucedeu ter esta pedra terrena feito a sua aparição no mundo científico no momento em que se encontravam iguais na lua?

Em resumo, era urgente fazer uma expedição científica àquela gruta. Fui encarregado de organizar a parte material da expedição.

Há uns anos penetrei numa loca que um pastor me indicou. Como a fauna que ali havia era interessante, voltei.

Para caçar os cavernícolas existentes na loca, tive de levantar, uma a uma, as pedras encravadas no chão.

Algumas pareceram curiosas. Não conheço nada de pedras e detesto encher a mochila com elas, sobretudo quando é preciso sair do fundo de um poço por uma frágil escada. E as pedras, além disso, não são a minha especialidade, pensei. Todavia enchi o saco. Não pensem que isto tenha qualquer relação com o que disse no inicio da narrativa. Tratava-se precisamente do contrário e isto prova que se pode atingir o mesmo fim por caminhos distintos.

Foi só por causa da minha ignorância e da minha curiosidade de pega que recolhi os calhaus em questão. Nunca tinha visto outros iguais em nenhuma das minhas centenas de explorações. Devido a tal experiência é que as assinalei. Aquelas pedras agradavam-me e queria saber o que eram. Levei-as ao laboratório e apresentei o meu achado a um geólogo que as considerou vulgares, sem interesse, boas para deitar fora. Não me rendi àquela solução radical e a minha audácia foi até ao ponto de as colocar numa vitrina da sala de entrada juntamente com outras amostras trazidas anteriormente, esperando que um dia, alguém, de passagem, lhes prestasse atenção.

Mas, francamente, não tive sorte nenhuma, ninguém olhava para elas. Apesar de bem apresentada, a minha mercadoria não encontrava comprador. De vez em quando tentava fazê-las sobressair no meio de cristais mais bonitos, mas cada tentativa resultava num fracasso e mortificação.

Um dia, com grande estupefacção minha, a mulher da limpeza foi intimada a desocupar as vitrinas para uma nova exposição. Tinham-me feito uma partida. «Acabaram-se todas estas porcarias sem interesse», disse a mulher, «deitei-as ao lixo.»

Naquela altura apeteceu-me deitar a casa abaixo.

Que não admirassem as minhas pedras, vá que não vá, mas deita-las ao lixo! Pedras preciosas que tinha carregado às costas, era o cúmulo! Encontrá-las-ia, havia de guarda-las e, se preciso fosse, guardá-las-ia debaixo da cama! Assim fiz, ou quase. Coloquei o precioso conteúdo do lixo numa caixa e guardei.

Entretanto efectuou-se a expedição à gruta de Rieusec, a qual forneceu uma grande quantidade de ensinamentos, embora seja ainda muito cedo para fazer um balanço, uma vez que estão em curso as análises, mas sabe-se que esta descoberta abre grandes perspectivas a várias pesquisas. Paul Caro, assistente do professor Trombe e também espeleólogo experiente, pediu-me, no decorrer daquela expedição, que no caso de eu ter encontrado pedras semelhantes às de Rieusec, lhas enviasse.

Pensava ele pregar-me uma partida e apanhar-me desprevenido, mas não era em vão que me chamavam o coca-bichinhos da espeleologia. Respondi-lhe, para seu espanto, que de pedras como aquelas tinha eu um caixote cheio na minha casa de banho e as guardava preciosamente há dez anos.

Se nas análises se revelassem iguais às de Rieusec, então diria onde as encontrara!

O jazigo destas pedras lunares estende-se, actualmente, por mais de trinta quilómetros.

Outras se hão-de encontrar, estou certo disso; agora toda a gente as vai descobrir!

Para mim pretendo encontrá-las de outra espécie, como as que serão trazidas de Marte, dentro de algum tempo, e que felizes acasos farão descobrir na Terra.

Os meios técnicos de investigação progridem incessantemente. Se o que ontem não tinha interesse o tem hoje, deve-se exclusivamente ao facto de terem aumentado as possibilidades de investigação, porque ninguém muda neste mundo.

Em tal caso não se trata de uma descoberta pessoal, mas de descobertas feitas por todos aqueles que, nós trazemos as pedras, trabalham na elaboração de novos aparelhos de análise.

Cada um no seu campo, pelo seu trabalho, contribui para se atingir um todo imprevisível.

Esta é a bela e misteriosa aventura da investigação científica. As descobertas não têm interesse se não pelos problemas que desencadeiam.

O progresso científico não resulta se não for uniforme em todos os seus domínios, pois tarde ou cedo, se qualquer deles for negligenciado, esta falta deita por terra todos os demais êxitos.

A espeleologia é, incontestavelmente, uma trave mestra na investigação futura.

Transcrição do livro de Michel Bouillon “Descoberta do Mundo Subterrâneo”, pag. 94-97 ano 1972.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Espeleologia - Exploração e Comportamento

Preparar uma exploração de ponta deve implicar uma pesquisa prévia sobre a zona onde está inserida, sobre a história do lugar e, acima de tudo, das explorações anteriormente realizadas. A Exploração é um acto em que nunca podemos prever em concreto o seu resultado final sendo, por isso, difícil precaver todas as situações.

[1] Este facto autêntico passou-se numa gruta dos Pirenéus da região de Áriège, bem conhecida dos pré-historiadores: guarda estátuas de argila únicas no mundo e a sua descoberta deve-se a uma sorte extraordinária.

Durante uma expedição cuja finalidade era o levantamento de gravuras das paredes de um divertículo da gruta, os filhos do conde Begouen descobriram uma passagem extremamente estreita que parecia dar acesso a uma série de galerias. Após várias horas de esforços, conseguiram alargar a passagem obstruída por concreções estalagmíticas e penetraram numa vasta e comprida galeria belamente concrecionada. O seu trabalho de pré-historiadores consistia em examinar conscienciosamente as paredes a fim de descobrir, se fosse possível, quaisquer novas pinturas ou gravuras. As delicadas e difíceis observações foram negativas e, pesarosos por aquele resultado decepcionante, caminharam lentamente até ao extremo da gruta que terminava em fundo de saco.

Como é regra em semelhantes casos, cada um deles escolheu um lado da galeria e os dois irmãos esperavam encontrar-se no fundo quando, estupefactos, tiveram de parar mesmo no último instante para não esmagar três bisontes esculpidos na argila, coisa até então desconhecida e que continua a ser única no mundo!

Foi grande o espanto, enorme a emoção. Refeitos da estupefacção, examinaram mais de perto aquele conjunto nada vulgar, dando voltas ao redor para melhor observarem todas as formas, e partiram logo a seguir para avisar o pai e os amigos que, sem quererem acreditar, foram imediatamente ver e admirar aquela descoberta extraordinária. Maravilhoso, direis. Sem dúvida, mas aquela descoberta sensacional não deu todos os resultados que se poderiam ter registado se tivesse sido feita nos nossos dias, pois espeleólogos experientes teriam agido diferentemente e não se lamentariam depois por não terem pensado naquilo que poderiam ter acrescentado à sua descoberta.

Ao redor dos bisontes, no chão, encontrar-se-iam, certamente, vestígios de pegadas, as quais permitiriam acompanhar as deslocações dos escultores ou dos oficiantes de cenas de magia e talvez, como aconteceu noutros lugares, determinar o seu número, idade…

Talvez houvesse também, no chão, sinais mágicos, como se encontraram seguidamente noutros locais da mesma gruta, mas certamente de menor importância do que aqueles que se poderiam ter encontrado naquele local especialmente escolhido para colocar as estátuas. Não restavam, portanto, para estudar, senão aquelas esculturas de bisontes. Mas que será feito dos vestígios da presença humana esmagados pelas sólidas botas dos exploradores?

Como é que se pode pensar em tudo?

Ainda que não esperemos fazer descobertas raríssimas, devemos manter uma atenção permanente e qualificada, pois elas podem surgir aos nossos olhos, de um momento para o outro, no mais profundo de uma caverna.

Muito mais culpados são os que, por negligência, antes de penetrarem numa gruta conhecida, omitem informar-se acerca do que foi descoberto pelos seus predecessores.

Assim foram esmagadas, por aqueles mesmos que as procuravam, as moldagens e gravuras no solo que faziam da gruta de Montespan um valioso lugar da pré-história.

Uma tal ignorância é criminosa, pois nestes casos não há a desculpa da surpresa.

[1] Transcrição do livro de Michel Bouillon “Descoberta do Mundo Subterrâneo”, pag. 13 e14 ano 1972.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Nascimento da Espeleologia Moderna

A primeira travessia subterrânea é realizada na região francesa dos Grands Causses, na gruta de Bramabiau, próxima da localidade de Camprieu, e com este acto nasce a espeleologia moderna decorria o ano de 1888.

Na época, este local atemorizava os camponeses locais que acreditavam que aí habitavam espíritos transtornados: foi com desdém que receberam a estranha caravana que acompanhava os exploradores pioneiros liderados por Edouard-Alfred Martel.

Martel visitou pela primeira vez a região no ano de 1883 e rapidamente se sentiu atraído pelas suas belezas cársicas. Viria a regressar depois com o intuito de a explorar. Conheceu então um capataz chamado “Poulard” que lhe falou e conduziu, um ano mais tarde, à entrada do fenómeno de Bramabiau, atractivo mas muito intrigante e inviolado.

Passaram quatro anos, Martel resolve enfrentar os seus temores e realizar o seu sonho inconsciente: atravessar a meseta de Camprieu.

Numa Quarta-Feira, a 27 de Junho de 1888, Martel e Marcel Gaupillat acompanhados por Claude Blanc, Émilie Foulquier e Auguste Parguel iniciam a exploração subterrânea às cascatas de Bramabiau.

Com o auxílio de um pequeno barco desmontável penetram pela saída da gruta, cerca de 800m, até à segunda cascata e ficam detidos neste ponto, intransponível para o barco.

No dia seguinte, às 8 horas da manhã, tentam descer as cascatas. Entram pela grande entrada da “Felicidad” e penetram no desconhecido: no local onde as águas se perdem.

Por volta das 10 horas, depois de percorrerem vários corredores e salas, chegam a um rio que inevitavelmente têm que percorrer por dentro de água. Martel, Blanc, Armand e Foulquier continuam sós a exploração e ao fim de mais 1 hora de difícil progressão, chegam à cascata onde haviam ficado detidos no dia anterior.

Depois de descerem a cascata, Foulquier reconhece os seus próprios rastos, segue-os e pouco depois chega à saída de Bramabiau, 90 metros abaixo do nível de entrada da “Felicidad”.

Martel e a sua equipa tinham conseguido realizar a enorme façanha: pela primeira vez na história da humanidade uma travessia subterrânea era concretizada. Este acto foi para Martel o seu primeiro grande descobrimento e para a espeleologia moderna, o seu nascimento.