sexta-feira, 4 de março de 2011

Expedição Angola 2010 - Os Nhaneka

"Nzambi a tu bane nguzu mu kukaiela"
(Deus nos dê forças para seguir)

GRUPO NHANEKA-HUMBE
Tanto entre os povos Nhaneka, quanto entre os Humbe, é levado a efeito sazonalmente a “Festa do Boi Sagrado”.

É um ritual de premonição, em relação aos resultados da colheita vindoura.

Um boi, malhado de preto e branco, é entregue pelo Soba aos cuidados de um Mene-Humbe -- grande pastor -- para que dele cuide até à época do ritual.

Na época própria, o Mene-Humbe, seguido por um cortejo de que fazem parte praticamente todos os habitantes da sanzala onde mora o Soba, dirige-se com o boi à casa deste chefe, que dá ao boi, na palma da mão, um pó branco preparado com cascas de árvore -- Omu-Abugulu.

Caso o boi não lamba o pó da mão do Soba, o presságio é negativo, o pastor responsabilizado e, dependendo do humor do Soba, pode até ser executado.

No caso de lamber o pó, o presságio é positivo, anuncia boas colheitas, o que é amplamente aplaudido pela população de seguidores.

Aí acontece uma festa apoteótica, em que a ordem de alegria geral é de tal maneira rigorosa que, enquanto a festa dure, estão vetados os cultos tristes.

A festa termina com o início do cortejo “ONDYELY”, em que o boi percorre todas as terras do Sobado, para que agora, já considerado sagrado, possa ser saudado por todos.

Outro costume curioso entre os Humbes, é quando uma moça pré-púbere engravida.

Os contactos sexuais, como na maioria dos povos em Angola, são encarados de forma natural, e jamais coibidos.

Qualquer garota, de qualquer idade, pode dormir com rapazes; o que não pode é engravidar.

Na tentativa de evitar que isso aconteça, as mães instruem as filhas a amarrar bem o pano da tanga entre as pernas, ou a praticar o coito interrompido; desvelos maternos bem intencionados, mas pouco práticos e nem sempre eficazes.

Quando acontece a gravidez indesejada a uma moça que ainda não tenha passado pelo ritual da puberdade, torna-se necessário que o feiticeiro a leve até à margem do Rio Kunene para um banho purificador, já que ela está conspurcada.

Na margem do rio, a moça sobe num galho de árvore que esteja bem sobre a correnteza, e que é cortado pelo feiticeiro, precipitando a moça no caudal violento; normalmente os jacarés do Kunene são mais rápidos para chegar à moça, do que ela nadar até à margem.

Uma das medidas práticas para evitar a gravidez das moças antes do ritual da puberdade é faze-las passar pelo ritual antes da puberdade fisiológica; o que por sua vez origina verem-se garotas com responsabilidades matrimoniais, em idade em que nas outras tribos apenas se ocupam com cantorias e brincadeiras infantis.

Entretanto, após a puberdade ritual, os nascimentos são amplamente festejados, a menos que sejam gémeos.

O nascimento de gémeos entre os Humbes, é sempre sinal de mau presságio, que só pode ser combatido por meio de uma série de rituais de contra efeito.

Mal nascem os gémeos, é chamado um Kimbanda para fazer a OKUTUNTHA, que consiste na lavagem da testa, nuca, cotovelos, joelhos e planta dos pés de toda a família.

Em seguida constrói-se fora da sanzala uma cubata para onde mãe e filhos são levados, e onde ficarão de quarentena por um largo período, determinado pelo feiticeiro; durante esse tempo, a mãe tem o encargo de, além de cuidar dos filhos, tecer dois pequenos cestos, que mais tarde lhes servirão de pratos.

No dia em que o feiticeiro der por findo o prazo de isolamento, vai logo de manhã avisar a mãe, e quando o sol estiver na vertical, o feiticeiro leva toda a família, pai, mãe e outros filhos além dos gémeos, para uma clareira no meio do mato, onde o pai haja erguido um estrado.

Lá chegados, o pai, a mãe e os gémeos, sentam-se nus no estrado, para que possam ser lavados com um preparado especial. A lavagem segue uma determinada ordem: Primeiro a mãe, depois o gémeo que primeiro tenha nascido, depois o pai, e por último o gémeo que nasceu em segundo lugar.

Só depois deste ritual é que as placentas podem ser enterradas, e a vida tomar um curso normal para a família.

É de notar que, apesar de toda a necessidade de purificação que causa o nascimento de gémeos, se forem trigémeos não acontece nada, absolutamente nada, procede-se como se houvesse nascido um só bebé.

Fonte: http://www.ritosdeangola.com.br/page.php?38Ver mais

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Expedição Angola 2010 - Os Muílas

O REGIME MATRIMONIAL



Entre os muilas, predomina a poligamia, como regime matrimonial, constituindo as suas mulheres uma fonte de riqueza, não só pelos trabalhos que fazem, mas também, e principalmente, pelo que recebem em pagamento, dos homens que com elas praticam adultério.

Para chegar ao casamento, o muila principia, naturalmente, pelo namoro, seguindo neste o ritual que a seguir se transcreve:

- Quando um rapaz pretende casar, depois de ter feito a escolha da que há de vir a ser sua companheira, encarrega uma irmã, prima ou sobrinha, de falar à rapariga pretendida, podendo, contudo, servir-se de outra pessoa de família como intermediária, mesmo que do sexo masculino. Obtida a concordância da rapariga, a intermediária - ou intermediário - vai falar aos pais da pretendida. Se estes concordarem com o casamento, a rapariga vai para a casa do pretendente, onde passa dois dias, dormindo com este, após o que regressa a sua casa. Quinze dias ou um mês depois, a pretendida volta novamente à casa do pretendente, para aí passar quatro dias, voltando a dormir com este. Contudo, tanto nas duas primeiras noites, como nas outras quatro, pretendida e pretendente não podem ter relações sexuais, muito embora lhes seja permitido dormir abraçados.

Após os quatro dias passados em casa do pretendente, a rapariga regressa a sua casa e, seguidamente os pais ou o tio materno do rapaz, conforme este viva com os primeiros ou com o segundo, e sem que este os acompanhe, dirigem-se à casa dos pais da pretendida, levando uma cabaça de "macau" ou um garrafão de vinho e um pano, o que representa o pedido de casamento . Os pais da pretendida perguntam então a esta se aceita ou não o casamento e, se a resposta for positiva, bebem a bebida e ela recebe o pano e veste-o. No caso da resposta ser negativa, ou se ela ainda não estiver resolvida a casar, os seus pais bebem da mesma maneira a bebida.


Aceite o casamento, tanto pela pretendida como pelos seus pais, o rapaz, uma semana depois do pedido, vai dormir duas ou quatro noites em casa dela. Nessa altura, os pais ou o tio do pretendente levam aos pais da sua futura companheira os bois que, na altura do pedido, tiver ficado estipulado entregarem, como alambamento - "Nontunha". No dia em isto sucede, à tarde, a noiva vai, acompanhada de uma irmã ou prima mais velha, para casa do seu marido, levando consigo uma cabaça, uma quimbala e uma panela, ficando assim realizado o casamento.

Se, posteriormente, o casamento vier a ser desfeito e a mulher tiver outro pretendente, este entrega ao ex-marido, em dobro, o alambamento por este entregue aos pais da mulher. Caso esta não volte a casar no prazo de dois anos - por vezes três -, o alambamento, também em dobro, é restituído ao ex-marido pela família.

O casamento é a maior ambição do homem, não por uma questão sentimental mas porque a mulher é, para ele, uma fonte de riqueza. Com efeito, como já ficou dito, a mulher representa um capital, tanto maior quanto maior for o seu número, pelo número de braços que representa para o trabalho e, consequentemente, uma maior abundância de mantimentos, a esperança de um maior número de filhos que, sendo do sexo feminino, representarão mais tarde outra boa fonte de receita com o recebimento do alambamento e, por último, uma verdadeira mina que, bem explorada, nos casos de adultério fará aumentar consideravelmente a sua riqueza com as "oukai" que receberão então, dos amantes das suas mulheres.

A fidelidade conjugal é, como se depreende, uma rara excepção por parte da mulher à libertinagem geral que se verifica, sendo frequente aquela ter um ou dois amantes certos, além dos ocasionais.

Em geral, quando o marido descobre a infidelidade da mulher, pouco ou nada se mostra incomodado com tal facto, desde que, naturalmente, os que com ela tiveram relações paguem a indemnização que o adultério lhe dá o direito a exigir, a qual consiste na entrega de um ou mais bois ou, muito raramente, de dinheiro, o que, como se disse já, contribui para aumentar a sua fortuna. É até frequente ser o próprio marido a facultar e a facilitar à sua mulher a prática de adultério, de comum acordo.

Também se verifica, embora muito raramente, o adultério praticado de comum entre maridos e mulheres, consistindo na troca temporária de mulheres, entre amigos, a que chamam "Oku-liyepa". É considerada uma prova de amizade muito íntima, o marido exigir que a mulher vá compartilhar da cama de um amigo, por alguns dias, estando este disposto a prestar igual favor.

Pode pois constatar-se que, no casamento e por parte dos homens, apenas existe o amor "animal", para satisfação das suas necessidades fisiológicas e o amor "material", pelos benefícios que a mulher, de uma maneira geral, lhes proporciona.

É muito limitado o poder do chefe de família, quanto aos filhos. Com efeito, seguindo o muila o regime do matriarcado, os tios maternos mandam mais nos sobrinhos que os próprios pais. Pode pois dizer-se, que o poder do chefe de família se limita em mandar na mulher, nos campos de um e outro e nas alfaias e gado, porque estas coisas, como a mulher, ela própria, foram por ele compradas.

A mulher, por sua vez, apenas exerce influência sobre os filhos, enquanto estes forem menores.



Fonte:http://www.pessoalissima.com/Homenagem/Muilas/Muilas_7.htmVer mais

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Angola - Fauna Cavernícola


Identificação
Finalmente a identificação da "bicha angolana"
Um agradecimento especial ao meu grande colega RAUL PEDRO que durante dois dias, pesquisou e descobriu, o "mistério" que se cruzou connosco a 25m de profundidade, numa caverna de Angola.
Trata-se de uma COBRA DE CASA AFRICANA.

Olive House Snake - OLIVACEUS LAMPROPHIS

Descrição da cabeça:
Apresenta uma linha fina e não linear sobre o olho, prolongando-se até à parte posterior da cabeça.
Olho uniforme, verde azeitona e esbugalhado.
Cabeça escura, triangular com afilamento acentuado dos olhos para a focinho ( narinas).

Descrição do corpo:
Apresenta lista vertebral de cor ligeiramente mais escura , mais nítida do meio do corpo para a cauda.
Tom geral esverdeado, quase uniforme e escamas tipo gota de água também muito uniformes.
As escamas ventrais são claras.

Cauda:
Não é possível observar.

Classificação
Família Colubridae; Sub-família Boodontinae; Género Lamprophis; Espécie olivaceus.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Travessia Sima - Tibia Cueva Fresca



Em Maio de 2009 executamos a travessia da Sima Tibia – Cueva Fresca. Com um percurso principal de cerca de 3km e um denível de 410m, esta é a terceira maior travessia do Vale Asón.

PASSOS NA HISTÓRIA

1964

Claude Mugnier localiza a gruta e faz a primeira inspecção.

Pouco tempo depois, o S. C. Dijon explora a rede dos Zarpazos e as galerias da Bici até alcançar o Bloque 64.

1965

O S. C. Dijon descobre a 5ª Avenida e a enorme sala Rebelais e avança pelo Cañón Rojo até ao Derrumbe 65.

Explorando outras redes laterais, descobrem o acesso às redes inferiores.

1966

Em colaboração com o S. E. S. Sautuola (Santander), o S. C. Dijon explora em Abril o meandro Federico e no verão o Cañón Rojo até ao final, o Cañón Norte, o Meandro Borracho, a galeria do Pozo Eolo, etc.

1967

Os trabalhos de topografia avançam; são topografados mais de 9250m.

1968

Ao se alcançar a Cañón Norte, são conhecidos 11500m de rede.

1970

São explorados o Rio 70 e o Torrente Suspendido.

De 1976 a 1988

São realizadas várias campanhas de topografia e exploração.

1989

Os espeleólogos do C. A. F. descobrem a Torca Tibia em Março e em 4 raids alcançam a profundidade de -150m.

Em Maio chegam ao fundo da rede Tibia, a -490m.

Em Julho, o mesmo grupo organiza um bivaque e escala uma chaminé que dá para uma galeria, que por sua vez dá acesso a um poço de 29m; descem-no e conseguem ligar as duas redes.

1990

Em Maio, o S. C. Paris realiza pela primeira vez a travessia de 410m de desnível e 3200m de desenvolvimento.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Fendas da Humpata, Angola

Depois de explorarmos cerca de 1km de rede, parecia que tínhamos esgotado as possibilidades de encontrar a continuação. Num canto, enquanto se procedia ao levantamento topográfico, reparamos numa pequena estreiteza sob os nossos pés. Averiguamos e parecia continuar.

Um pequeno túnel bastante sinuoso parecia querer desafiar a malta. Enfrentamo-lo, mas com grande cautela. Era muito longo, estreito e sinuoso e, se não conseguíssemos dar a volta ao corpo no fim, podia ser muito complicado voltar a sair dali.

Mas compensou, no fim do túnel e apenas com uns arranhões nas costas, conseguimos dar a volta ao corpo e detectar a continuação da rede. Estava apenas ligeiramente obstruída por areia, perfeitamente transponível depois de uma desobstrução.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

História de Pedras

Pessoas instruídas há muitas; pessoas instruídas e inteligentes, menos; muito menos ainda, pessoas que, além da instrução e da inteligência, têm faro!

Tenho uma grande admiração e respeito por essas pessoas pois são raríssimas.

Honro-me de conhecer algumas e vejo-me obrigado, em favor da precisão desta história, a nomear uma. Trata-se do professor Félix Trombe, montanhista e espeleólogo experimentado, sempre cheio de ideias geniais. Era quase inevitável que ele estivesse na base de uma descoberta que vos passo a contar e de que participei.

Há uns anos atrás, Félix Trombe, sempre ávido de pesquisa e amante do mundo subterrâneo, embrenhou-se na gruta de Rieusec. Aquela gruta, situada no maciço de Paloumére, na vertente de Henne-Morte, há muito que o atraía. Apesar de imensa, Trombe conhecia-a até aos mais pequenos recantos.

Logo à primeira vista avaliara o interesse daquela gruta que, aos seus olhos, não era como as outras.

Ele mesmo escolheu e extraiu, de entre várias toneladas de pedras, aquelas que lhe pareceram diferentes de todas as outras. Muitos outros espeleólogos e investigadores visitaram aqueles lugares sem que nada tivessem notado de particular.

Trombe, ao regressar a Paris, confiou uma amostra dos calhaus a um químico a fim de saber de que se tratava. O calhau que não foi utilizado nas análises foi-lhe devolvido com um relato sumário. A pedra não tinha qualquer interesse, tratava-se de calcite vulgar, idêntico ao que se encontra em todas as grutas.

Mais admirado que decepcionado, o professor guardou o calhau outra vez, não se decidindo a separar-se dele. Meteu-o no fundo de uma gaveta, convencido de que um dia qualquer coisa se haveria de revelar.

Passou o tempo. Cada um de nós sente, de vez em quando, a necessidade de arrumar as gavetas. Foi assim que Trombe redescobriu o seu querido calhau, amostra mineral.

Entregou-o ao seu assistente, pedindo-lhe para examinar a pedra quando tivesse tempo.

Fez-se o exame. Como Trombe previra, a pedra tinha enorme interesse científico.

Conforme o garantiam as análises feitas no laboratório de terras raras de Bellevue, jamais se vira calhau igual. Continha uma multidão de produtos interessantes e tinha, ademais, a particularidade de apresentar um espectro exactamente igual ao das pedras trazidas da lua.

Estranha coincidência: como é que sucedeu ter esta pedra terrena feito a sua aparição no mundo científico no momento em que se encontravam iguais na lua?

Em resumo, era urgente fazer uma expedição científica àquela gruta. Fui encarregado de organizar a parte material da expedição.

Há uns anos penetrei numa loca que um pastor me indicou. Como a fauna que ali havia era interessante, voltei.

Para caçar os cavernícolas existentes na loca, tive de levantar, uma a uma, as pedras encravadas no chão.

Algumas pareceram curiosas. Não conheço nada de pedras e detesto encher a mochila com elas, sobretudo quando é preciso sair do fundo de um poço por uma frágil escada. E as pedras, além disso, não são a minha especialidade, pensei. Todavia enchi o saco. Não pensem que isto tenha qualquer relação com o que disse no inicio da narrativa. Tratava-se precisamente do contrário e isto prova que se pode atingir o mesmo fim por caminhos distintos.

Foi só por causa da minha ignorância e da minha curiosidade de pega que recolhi os calhaus em questão. Nunca tinha visto outros iguais em nenhuma das minhas centenas de explorações. Devido a tal experiência é que as assinalei. Aquelas pedras agradavam-me e queria saber o que eram. Levei-as ao laboratório e apresentei o meu achado a um geólogo que as considerou vulgares, sem interesse, boas para deitar fora. Não me rendi àquela solução radical e a minha audácia foi até ao ponto de as colocar numa vitrina da sala de entrada juntamente com outras amostras trazidas anteriormente, esperando que um dia, alguém, de passagem, lhes prestasse atenção.

Mas, francamente, não tive sorte nenhuma, ninguém olhava para elas. Apesar de bem apresentada, a minha mercadoria não encontrava comprador. De vez em quando tentava fazê-las sobressair no meio de cristais mais bonitos, mas cada tentativa resultava num fracasso e mortificação.

Um dia, com grande estupefacção minha, a mulher da limpeza foi intimada a desocupar as vitrinas para uma nova exposição. Tinham-me feito uma partida. «Acabaram-se todas estas porcarias sem interesse», disse a mulher, «deitei-as ao lixo.»

Naquela altura apeteceu-me deitar a casa abaixo.

Que não admirassem as minhas pedras, vá que não vá, mas deita-las ao lixo! Pedras preciosas que tinha carregado às costas, era o cúmulo! Encontrá-las-ia, havia de guarda-las e, se preciso fosse, guardá-las-ia debaixo da cama! Assim fiz, ou quase. Coloquei o precioso conteúdo do lixo numa caixa e guardei.

Entretanto efectuou-se a expedição à gruta de Rieusec, a qual forneceu uma grande quantidade de ensinamentos, embora seja ainda muito cedo para fazer um balanço, uma vez que estão em curso as análises, mas sabe-se que esta descoberta abre grandes perspectivas a várias pesquisas. Paul Caro, assistente do professor Trombe e também espeleólogo experiente, pediu-me, no decorrer daquela expedição, que no caso de eu ter encontrado pedras semelhantes às de Rieusec, lhas enviasse.

Pensava ele pregar-me uma partida e apanhar-me desprevenido, mas não era em vão que me chamavam o coca-bichinhos da espeleologia. Respondi-lhe, para seu espanto, que de pedras como aquelas tinha eu um caixote cheio na minha casa de banho e as guardava preciosamente há dez anos.

Se nas análises se revelassem iguais às de Rieusec, então diria onde as encontrara!

O jazigo destas pedras lunares estende-se, actualmente, por mais de trinta quilómetros.

Outras se hão-de encontrar, estou certo disso; agora toda a gente as vai descobrir!

Para mim pretendo encontrá-las de outra espécie, como as que serão trazidas de Marte, dentro de algum tempo, e que felizes acasos farão descobrir na Terra.

Os meios técnicos de investigação progridem incessantemente. Se o que ontem não tinha interesse o tem hoje, deve-se exclusivamente ao facto de terem aumentado as possibilidades de investigação, porque ninguém muda neste mundo.

Em tal caso não se trata de uma descoberta pessoal, mas de descobertas feitas por todos aqueles que, nós trazemos as pedras, trabalham na elaboração de novos aparelhos de análise.

Cada um no seu campo, pelo seu trabalho, contribui para se atingir um todo imprevisível.

Esta é a bela e misteriosa aventura da investigação científica. As descobertas não têm interesse se não pelos problemas que desencadeiam.

O progresso científico não resulta se não for uniforme em todos os seus domínios, pois tarde ou cedo, se qualquer deles for negligenciado, esta falta deita por terra todos os demais êxitos.

A espeleologia é, incontestavelmente, uma trave mestra na investigação futura.

Transcrição do livro de Michel Bouillon “Descoberta do Mundo Subterrâneo”, pag. 94-97 ano 1972.